Crime e Castigo - II
— Não existem? Acha? — continuou Svidrigáilov, olhando atentamente para ele. — Então, se raciocinarmos assim (ajude-me cá): «Os fantasmas são, por assim dizer, pedaços e fragmentos de outros mundos, elementos desses mundos. Um homem saudável, evidentemente, não tem nada que os ver, porque o homem saudável é o mais terreno dos seres e, por conseguinte, tem de viver unicamente a vida terrena, em prol da plenitude e da ordem. Porém, mal adoeça, mal se perturbe a ordem normal terrena do seu organismo, começa a manifestar-se a possibilidade de outro mundo, e quanto mais doente a pessoa for, tanto maior o seu contacto com o outro mundo; assim, quando morrer definitivamente, passará directamente para outro mundo.» Há muito que reflicto sobre isto. Quem acreditar na vida do além terá de aceitar também este raciocínio.
— Não acredito na vida do além — disse Raskólnikov.
Svidrigáilov continuava pensativo.
— E se lá houver apenas aranhas ou qualquer coisa do género... — disse de repente.
«Um maluco» — pensou Raskólnikov.
— Imaginamos sempre a eternidade como uma ideia impossível de compreender, uma coisa enorme, enorme! Mas, porquê obrigatoriamente enorme? Quem sabe se, em vez disso tudo, só existe lá um pequeno recinto, do género dos banhos de aldeia, coberto de fuligem e com aranhas por todos os cantos, e se toda a humanidade não passa disso? Por acaso, imagino de vez em quando algo deste género.
F. DOSTOIÉVSKI, Crime e Castigo, Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, Janeiro 2006, págs. 272-273.
— Não acredito na vida do além — disse Raskólnikov.
Svidrigáilov continuava pensativo.
— E se lá houver apenas aranhas ou qualquer coisa do género... — disse de repente.
«Um maluco» — pensou Raskólnikov.
— Imaginamos sempre a eternidade como uma ideia impossível de compreender, uma coisa enorme, enorme! Mas, porquê obrigatoriamente enorme? Quem sabe se, em vez disso tudo, só existe lá um pequeno recinto, do género dos banhos de aldeia, coberto de fuligem e com aranhas por todos os cantos, e se toda a humanidade não passa disso? Por acaso, imagino de vez em quando algo deste género.
F. DOSTOIÉVSKI, Crime e Castigo, Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, Janeiro 2006, págs. 272-273.





